Às 23 horas como acertado pegaram o possante Fiat 147 que possuem e dirigiram-se ao centro histórico, local onde se concentram o maior número de ‘atrações’. Encontraram a Praia Grande bastante movimentada, com apresentações em várias esquinas e com um grande número de policiais espalhados pelas ruas daquele logradouro.
Assistiram a algumas exibições de grupos carnavalescos, mesmo que sem entender quase porra nenhuma, já que a distância ínfima entre um local de apresentação e outro, provocava nas pessoas ainda sóbrias uma incômoda sensação de ‘ audição em estéreo’ tal a poluição sonora que pairava – ou deslocava-se – no ar. Notaram que alguns mais embriagados e afoitos, deliravam e pulavam feito doidos no meio da folia. Chamava atenção um casal dançando frevo em frente a um bloco tradicional e uma moçoila que acompanhava uma roda-de-samba em passos de boi-de-orquestra.
Resolveram ir a algum bar tomar uma cerveja gelada para aliviar a sede. Isso depois de combinarem aos berros, o que gerou até uma intervenção policial pensando tratar-se de uma violenta briga entre o casal. Desfeito o mal entendido, sentaram-se em um dos muitos bares do local e pediram uma cerveja bem geladinha. Isto sim seria um alento para aquela noite quente de verão, não fosse a irritante e agressiva antipatia da garçonete que ao colocar sobre a mesa o precioso líquido declarou em bom tom e com um sorrisinho sarcástico no rosto:
- É bom verem se vai descer!...
Na verdade, nenhum dos bares do ‘Projeto Reviver’ possui estrutura para grandes afluxos de pessoas ao local. Nem mesmo os vendedores ambulantes com suas indefectíveis caixas de isopor conseguem suprir essa deficiência. Em qualquer bar que você encostasse a cerveja estava quente e a cozinha havia fechado às 23 horas.
Ainda insistiram andando pelo local até as 02 horas, quando aí entenderam a razão de centenas de policiais ali em serviço. Divididos em grupos de número intimidador e numa verdadeira operação de guerra, começaram a invadir os bares, restaurantes e lanchonetes obrigando-os a fecharem as contas de todos os clientes e colocá-los pra rua. Nem mesmo os ambulantes escaparam e alguns ainda foram ameaçados pelo cassetetes longo-alcance dos homens-da-lei. Dando apoio à ‘operação fechamento’, alguns camburões imprudentemente transitavam com certa velocidade entre a multidão que ainda se concentrava em busca de algum restinho de alegria.
Assustado L. Heitor pegou sua mulher pela mão retirando-se dali, quase que em disparada, em direção ao seu carro. Entraram e decidiram tomar uma cerveja em qualquer local onde pudessem sentar e, de preferência não ouvissem nenhuma música carnavalesca. Só queriam sossego para acabar aquela desastrosa noite de uma forma amena.
Atravessaram a ponte do São Francisco e transitaram lentamente pelo bairro de mesmo nome. Tudo fechado. Rumaram para a Lagoa. Tudo fechado. Litorânea. Tudo fechado. Na Ponta d’Areia alguns quiosques e um bar-lanchonete ainda estavam abertos, mas não podiam mais vender nenhuma bebida alcoólica. E por onde passavam viam os camburões que ao invés de prender bandidos, fecham os bares expulsam pessoas de bem que querem apenas diversão e lazer. Pensou nas centenas de garçons e garçonetes, cozinheiros e cozinheiras, desempregados pela limitação coercitiva da lei. Até os flanelinhas e as prostitutas estavam pelas calçadas com caras de tacho. Isso numa cidade onde a miséria impera e falta de oportunidades de trabalho é gritante. Isso numa cidade que quer mostrar-se como um pólo turístico e pouco ou quase nada tem a oferecer aos turistas, que sofre com a pequena ou quase nenhuma estrutura que possui.
Desolado L. Heitor pegou a sua esposa e o seu carro e foi para a sua casa dormir. Era a única coisa a fazer diante de tanta tristeza. E arrancou pensando em passar os dias de carnaval longe desta Ilha da Fantasia. Quem sabe em Teresina?
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